Era novembro e aproximava-se mais um Natal e com ele a ansiedade, a inquietação, o entusiasmo e a alegria que se espalhavam por toda a cidade… ou quase. Naquela cidade, o Natal era encarado como um momento célebre, sendo esperado por todos. No entanto, havia alguém que não gostava do Natal, o Bruno.
Este era um rapaz misterioso e solitário. Raramente saía de sua casa, talvez porque este era o único sítio no qual se sentia bem, para além da escola e do velho cemitério onde ia frequentemente. Dizia-se que a sua mãe tinha morrido, por volta dos seus 7 anos, mas ninguém sabia ao certo quando nem porquê. O certo certo é que ninguém gostava dele, todos pensavam que ele era louco devido às suas atitudes. Porém, há sempre alguém que nos entende e este rapazinho tinha qualquer coisa que cativava a atenção de Alexandra, uma rapariga citadina, igual a tantas outras. Ela sabia que, no fundo, o Bruno era só um rapaz tímido, mas com um bom coração.
Alexandra tencionava aproximar-se de Bruno, ganhando a sua confiança, pois a sua vontade era a de o conhecer, também alimentada pela curiosidade de descobrir a razão de ele não gostar do Natal. Por isso, começou a frequentar os mesmos lugares que ele e a persegui-lo cada vez mais, até que, um dia, encheu-se de coragem e falou com ele. Foi um diálogo simples e breve, mas o sorriso de Bruno, ao ouvir a voz doce de Alexandra a perguntar-lhe o seu nome, fê-lo entusiasmar-se, de forma surpreendente. A partir desse dia, falavam e conviviam um com o outro, frequentemente, e tornaram-se grandes amigos.
Passara um mês e era véspera de Natal. A Alexandra convidou o Bruno para jantar em sua casa, mas este recusou o convite, dizendo:
- Desculpa, mas não posso aceitar o teu convite. Para mim, a noite de Natal é o pior dia do ano.
- Não percebo porquê! Esta época é tão esperada por todos, durante um ano inteiro!
- É uma história longa, não deves querer ouvir…
- Podes contar-me, estou aqui para tudo de que precisares.
- Custa-me falar sobre isto, mas é a primeira vez que sinto que posso desabafar com alguém… Tudo se passou num dia de Natal. Eu estava muito feliz, porque a minha mãe estava a organizar uma grande festa de Natal, em nossa casa. Eu decidi ir para casa de um amigo, enquanto a minha mãe tomava conta dos preparativos de Natal, sozinha. E foi quando sucedeu a maior tragédia da minha vida, no momento em que um candelabro caiu de cima da mesa. A casa ficou toda em chamas e a minha mãe não conseguiu escapar de lá com vida. Morreu incendiada no dia de Natal, aquele que todos dizem ser o mais feliz do ano.
E, não conseguindo conter as lágrimas, partiu e, a partir desse dia, nunca mais se ouviu falar de Bruno, nem mesmo Alexandra o viu mais.
Nesta época do ano, em que toda a gente se reúne e convive alegremente, o Bruno vive sozinho a mágoa causada por toda a tragédia e não se perdoa pelo facto de nunca ter dito à mãe que ela era a pessoa mais importante da sua vida e que a amava mais do que qualquer outra coisa no mundo…
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