Saiu à rua e respirou fundo, sentindo aqueles odores citadinos a que já estamos habituados mas que, para ele, eram, agora, uma completa novidade. Parecia que tudo evaporara da sua mente e do seu pensamento… Não permitira a si mesmo sonhar, ao longo dos 15 anos em que estivera enclausurado. Assim, tudo era novidade para ele: a forma como os carros estavam estacionados, o enfeite das ruas, a alegria das pessoas, mas Rúben não percebia o porquê.
Vagueava pela cidade, admirando-se com isto e com aquilo, recordando-se disto e daquilo e reparou num pobre mendigo que se encontrava à beira da estrada. Aproximou-se e, estranhamente, sentiu que algo o ligava àquele homem e não resistiu em dirigir-lhe a palavra.
Rúben começou a contar-lhe o que lhe tinha acontecido, não sabendo bem porquê. O que sabia era que as palavras saíam da sua boca de forma espontânea. Por momentos, fazia longas pausas, refletindo sobre o motivo de estar a falar com aquele desconhecido, mas logo se recompunha e continuava a história. Disse-lhe que seu pai tinha morrido, ainda ele era muito jovem, e que, depois, ao tentar sustentar a família, roubando, acabou por ser apanhado e preso.
- E tu, tens alguma história? – era a pergunta que Rúben mais lhe quis fazer.
Este contou-lhe que tinha sido abandonado à porta de um orfanato e que, mais tarde, fugira, com esperança de encontrar a sua mãe…
- O meu nome é Carlos – acrescentou. Era um nome que soava um tanto familiar na cabeça de Rúben, mas este não o quis partilhar com este estranho que parecia que conhecia, desde sempre.
Decidiram, unindo a solidão de ambos, passar o Natal juntos e dirigiram-se a uma associação que lhes ofereceu uma sopa e pouco mais… Era o melhor Natal desde que Rúben se lembrava.
Uma senhora aproximou-se deles e perguntou-lhes de onde eram. Estes contaram as suas histórias e, assim que esta ouviu os seus nomes, começou a chorar.
A senhora recompôs-se e contou-lhes que, todos os dias, procurava os seus dois filhos, Carlos e Rúben, em vão, mas que hoje os tinha encontrado.
Ali choraram todos, durante um tempo que pareceu infindável… A história, agora, estava completa...
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