Recensão bibliográfica: AMBROSIO, U., Etnomatemática. Elo entre as tradições e a modernidade, Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001.
Existe, desde há décadas, uma área de estudo e de intervenção pedagógica designada especificamente por Etnomatemática e que se desenvolve em projectos educativos em universidades, escolas e salas de aula. O Movimento da Etnomatemática surgiu no Brasil, em 1975, a partir dos trabalhos de Ubiratan D`Ambrosio. Sabe-se que para as teorias críticas e pós-críticas do currículo, bem como para as teorias sócio-construtivistas, o ethos é fundamental na organização das aprendizagens. O conceito de Etnomatemática foi criado por Ubiratan d'Ambrósio que o definiu da seguinte forma: “A etnomatemática privilegia o raciocínio qualitativo. Um enfoque etnomatemático está sempre ligado a uma questão maior, de natureza ambiental ou de produção, e a etnomatemática raramente se apresenta desvinculada de outras manifestações culturais, tais como arte e religião. A etnomatemática se enquadra perfeitamente numa concepção multicultural e holística de educação.” (Ubiratan d'Ambrósio, Professor na Universidade de Campinas, Brasil) A etnomatemática parte, portanto, do princípio que não existe uma matemática com carácter universal, civilizacional, mas sim, diversas expressões matemáticas que emergem em culturas particulares e nelas encontram sentido. Assim, para ensinar matemática será preciso contextualizar as aprendizagens nos quadros culturais, sociais, étnicos dos sujeitos. Isto pressuporá respeito pelas culturas, raízes culturais, multiculturalismo, ambientalismo, dualismo qualitativo/quantitativo, ciência ocidental, cultura europeia, culturas não ocidentais, minorias étnicas e sociais, construtivismo, matemática natural, relativismo, incerteza. A dificuldade de articulação destas variáveis no ensino da matemática revela-se complexo e paradoxal nas suas várias exigências e vertentes dos curricula. Recomenda-se a sua leitura e convida-se à problematização/critica.
Stella de Azevedo
quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
Receita para se formar um Bom Aluno
Meia dose de atenção,
Sem nenhuma distracção.
Junta dedicação, respeito
E muito trabalho feito.
E, para se ser excelente,
Tem de haver concentração.
Assim como a matéria em mente,
Sem qualquer reclamação.
Para, agora, a receita finalizar:
O aluno tem de ter juízo.
Ah! E não esquecer de trabalhar,
Para sair da escola com um sorriso.
Rita Bastos (10ºC)
Sem nenhuma distracção.
Junta dedicação, respeito
E muito trabalho feito.
E, para se ser excelente,
Tem de haver concentração.
Assim como a matéria em mente,
Sem qualquer reclamação.
Para, agora, a receita finalizar:
O aluno tem de ter juízo.
Ah! E não esquecer de trabalhar,
Para sair da escola com um sorriso.
Rita Bastos (10ºC)
Raiva!
Aguenta a chaga, quando o mundo desabar sobre ti,
Lança a praga, neste cenário devastado
que, até então, nunca vira.
Segura a vela que te ilumina, não a deixes apagar,
O mesmo sucede com a vida, quando deixas de sonhar.
Limita-te a encarar uma realidade, por mais dura que seja.
O teatro mais bonito termina,
Quando a traição o fecha.
Sorrisos são sorrisos, os mais puros limitados.
Temporiza a acção, não entres de olhos fechados
Tirei a venda dos meus olhos
E a mentalidade de criança acabou.
No fundo do túnel, eu caí,
Quando a sua luz se apagou …
Não sou dura, mas sou pura,
Quando os meus olhos choram.
As minhas lágrimas lançadas
Já moram no Inferno,
Mas eu vivo, porque alguém me levantou!
Ana Valente (10º C)
25 de Outubro de 2008
Lança a praga, neste cenário devastado
que, até então, nunca vira.
Segura a vela que te ilumina, não a deixes apagar,
O mesmo sucede com a vida, quando deixas de sonhar.
Limita-te a encarar uma realidade, por mais dura que seja.
O teatro mais bonito termina,
Quando a traição o fecha.
Sorrisos são sorrisos, os mais puros limitados.
Temporiza a acção, não entres de olhos fechados
Tirei a venda dos meus olhos
E a mentalidade de criança acabou.
No fundo do túnel, eu caí,
Quando a sua luz se apagou …
Não sou dura, mas sou pura,
Quando os meus olhos choram.
As minhas lágrimas lançadas
Já moram no Inferno,
Mas eu vivo, porque alguém me levantou!
Ana Valente (10º C)
25 de Outubro de 2008
Esse monstro que é a guerra …
Somos seres humanos, não animais, porquê a guerra? Dizemo-nos seres desenvolvidos, com grandes tecnologias, com capacidade de louvar e ainda existe guerra?!
Deixa-me transtornado o facto de pensar que crianças entre os oito e os catorze anos são recrutadas para virem a ser bombistas-suicidas. É verdade que apenas deparamos com estas situações cruéis em países menos desenvolvidos, mas pergunto-me: aqueles países que se dizem desenvolvidos também não estão envolvidos nos actos bélicos? Perante isto, penso sobre se existem, realmente, países muito desenvolvidos.
O certo é que existem pessoas a morrer à fome, mas os países insistem em investir em armamento de guerra, por exemplo Portugal, um país pequeno, cuja gestão financeira deveria ser feita de forma a que se acabasse com os problemas relacionados com a fome existencial, mas não, deparamo-nos com um grande investimento em submarinos e pistolas. Não sei o que dizer perante isto… O que se passa com o mundo é, realmente, grave. Todos temos conhecimentos, todos somos cívicos, ou dizemo-nos cívicos, mas, perante estes problemas com que nos deparamos, não sei, realmente, se somos assim tão civilizados!...
Quando se fala em guerra, todos ficam espantados e com um sentimento de mágoa pelas pessoas que estão em guerra, mas temos de ver que estas existiram, existem e vão continuar a existir, se só houver um sentimento de dor. Temos, por isso, de fazer algo para alterar esta situação. Sim, porque, se não somos nós, “mundo desenvolvido”, quem vai ser?
Estamos mesmo perante um grande problema e a resolução não parece estar à vista.
Tiago Coelho (12ºE)
Deixa-me transtornado o facto de pensar que crianças entre os oito e os catorze anos são recrutadas para virem a ser bombistas-suicidas. É verdade que apenas deparamos com estas situações cruéis em países menos desenvolvidos, mas pergunto-me: aqueles países que se dizem desenvolvidos também não estão envolvidos nos actos bélicos? Perante isto, penso sobre se existem, realmente, países muito desenvolvidos.
O certo é que existem pessoas a morrer à fome, mas os países insistem em investir em armamento de guerra, por exemplo Portugal, um país pequeno, cuja gestão financeira deveria ser feita de forma a que se acabasse com os problemas relacionados com a fome existencial, mas não, deparamo-nos com um grande investimento em submarinos e pistolas. Não sei o que dizer perante isto… O que se passa com o mundo é, realmente, grave. Todos temos conhecimentos, todos somos cívicos, ou dizemo-nos cívicos, mas, perante estes problemas com que nos deparamos, não sei, realmente, se somos assim tão civilizados!...
Quando se fala em guerra, todos ficam espantados e com um sentimento de mágoa pelas pessoas que estão em guerra, mas temos de ver que estas existiram, existem e vão continuar a existir, se só houver um sentimento de dor. Temos, por isso, de fazer algo para alterar esta situação. Sim, porque, se não somos nós, “mundo desenvolvido”, quem vai ser?
Estamos mesmo perante um grande problema e a resolução não parece estar à vista.
Tiago Coelho (12ºE)
Odeio-te!
Odeio que me tenhas feito engordar.
Odeio que me tenhas feito comer.
Odeio como sobrevalorizas as minhas “vozes”
e as deixas sós para “lutar”.
Odeio como me fazes feliz.
Odeio a forma como não me deixas chorar.
Odeio como impedes de eu me magoar!
Odeio como não me deixas morrer.
Odeio que “encaixes” na minha família.
Odeio quando discutimos.
Odeio que me levantes da escuridão.
Odeio que me dês “LUZ”.
Odeio que me tenhas roubado a minha depressão,
era algo que tencionava manter.
Odeio que tornes a minha vida melhor.
Odeio a forma com que “caio a dormir”.
Odeio que não me permitas sangrar.
Odeio, porque perdi a vontade.
Odeio, porque não estou em baixo (nunca mais!).
Odeio que me ergas tão alto!
Odeio ser tão preenchida com uma nova vida.
Odeio já não estar morta por dentro.
Odeio não ter mais trevas em redor
e nada mais ter, para te esconder.
Odeio-te, com cada fibra minha.
Odeio-te por todos os lados.
Odeio-te, tão silenciosamente …
Odeio-te sem um único som.
Odeio-te com paixão.
Odeio todos os teus actos!
O que mais posso dizer?
Odeio tudo em ti …
E odeio como me manténs no alto.
Odeio como não me deixas cair.
Mas o que mais odeio em ti
é que, na verdade, eu não te odeio.
Mesmo nada! …
7 de Novembro de 2008
Título original: “Hate you my best” (seis meses antes)
Ana Filipa Salgado (10º C) – autora do poema
Odeio que me tenhas feito comer.
Odeio como sobrevalorizas as minhas “vozes”
e as deixas sós para “lutar”.
Odeio como me fazes feliz.
Odeio a forma como não me deixas chorar.
Odeio como impedes de eu me magoar!
Odeio como não me deixas morrer.
Odeio que “encaixes” na minha família.
Odeio quando discutimos.
Odeio que me levantes da escuridão.
Odeio que me dês “LUZ”.
Odeio que me tenhas roubado a minha depressão,
era algo que tencionava manter.
Odeio que tornes a minha vida melhor.
Odeio a forma com que “caio a dormir”.
Odeio que não me permitas sangrar.
Odeio, porque perdi a vontade.
Odeio, porque não estou em baixo (nunca mais!).
Odeio que me ergas tão alto!
Odeio ser tão preenchida com uma nova vida.
Odeio já não estar morta por dentro.
Odeio não ter mais trevas em redor
e nada mais ter, para te esconder.
Odeio-te, com cada fibra minha.
Odeio-te por todos os lados.
Odeio-te, tão silenciosamente …
Odeio-te sem um único som.
Odeio-te com paixão.
Odeio todos os teus actos!
O que mais posso dizer?
Odeio tudo em ti …
E odeio como me manténs no alto.
Odeio como não me deixas cair.
Mas o que mais odeio em ti
é que, na verdade, eu não te odeio.
Mesmo nada! …
7 de Novembro de 2008
Título original: “Hate you my best” (seis meses antes)
Ana Filipa Salgado (10º C) – autora do poema
A pena e o tinteiro
Uma pena presumida
De escrever grandes sentenças
Falava das suas obras
Tão sublimes quanto extensas.
Sem mim – disse ela ao tinteiro -,
Pouca figura exibirias:
Cheio de um licor imundo,
Sem mim, triste, que farias?
O tinteiro, injuriado,
Vazou logo a tinta fora
E voltou-se para a pena,
Dizendo-lhe: escreve agora!
Assim, responde aos ingratos,
Muitas vezes, a razão:
Muita gente há como a pena
E, como o tinteiro, outras são!
4 de Novembro de 2008
Cristina Ferreira da Silva (12º B)
De escrever grandes sentenças
Falava das suas obras
Tão sublimes quanto extensas.
Sem mim – disse ela ao tinteiro -,
Pouca figura exibirias:
Cheio de um licor imundo,
Sem mim, triste, que farias?
O tinteiro, injuriado,
Vazou logo a tinta fora
E voltou-se para a pena,
Dizendo-lhe: escreve agora!
Assim, responde aos ingratos,
Muitas vezes, a razão:
Muita gente há como a pena
E, como o tinteiro, outras são!
4 de Novembro de 2008
Cristina Ferreira da Silva (12º B)
Speach of the Sick to the fish
What you are?
Fish that open your mouths and nothing say.
Those who are sick a lot say
but open their mouths they do not.
Fish who smoke with their mouths open
and make bubbles then
Sick ones that smoke with their mouths closed
and enjoy their highs
Fish who drown the minds of the sick
Sick ones that try to keep their minds above water
and their noses under, full of virus.
Fishs who smoke stoned weeds
and laugh
Sick ones who smoke garden weeds
and think
Fishs like plants think
And the sick who hail the winter
Who are the barely close-minded fishs
that always open their mouths to say nothing
And the sick thing that keep
their mouths shut
and are always thinking(?)
Maybe some can say
"long live the winter
and their headaches"
Or is by the remaining
of an "headhach"?
Maybe the easy way of
the life fishs
start to be sacrified(?)
Like the strange understood world,
strange things happen,
and noone understand.
May live nothing.
...
...
Who is going to hug me tonight?
A big fat worm?
But I hate worms.
I do not love god
to be huged by a worm.
The meaningless
are in your head.
Valter 11ºB
Fish that open your mouths and nothing say.
Those who are sick a lot say
but open their mouths they do not.
Fish who smoke with their mouths open
and make bubbles then
Sick ones that smoke with their mouths closed
and enjoy their highs
Fish who drown the minds of the sick
Sick ones that try to keep their minds above water
and their noses under, full of virus.
Fishs who smoke stoned weeds
and laugh
Sick ones who smoke garden weeds
and think
Fishs like plants think
And the sick who hail the winter
Who are the barely close-minded fishs
that always open their mouths to say nothing
And the sick thing that keep
their mouths shut
and are always thinking(?)
Maybe some can say
"long live the winter
and their headaches"
Or is by the remaining
of an "headhach"?
Maybe the easy way of
the life fishs
start to be sacrified(?)
Like the strange understood world,
strange things happen,
and noone understand.
May live nothing.
...
...
Who is going to hug me tonight?
A big fat worm?
But I hate worms.
I do not love god
to be huged by a worm.
The meaningless
are in your head.
Valter 11ºB
sábado, 1 de Novembro de 2008
O(s) Mundo(s) do(s) Livro(s). Reflexões.
CLASSEN, Constance, Mundos do sentido. Explorando os sentidos na história e através das culturas, London, Routledge, 1993.
Breve história do(s) sentido(s)
Como advertiu o filósofo H.-G. Gadamer são os preconceitos que nos permitem pensar ao anteporem-se aos nossos juízos, tornando-os, assim, possíveis. Daqui que esses preconceitos se deixem, dificilmente pensar… Mas podemos tentar fazê-lo virando-nos para os preconceitos dos outros, assistir à arbitrariedade que lhes está subjacente e que sustenta os seus juízos. Ora, a História é uma excelente via para nos distanciarmos de nós mesmos e olhar, com estranheza, aquilo que, de tão familiar, se nos tinha tornado invisível (não visível).
C. Classen, Professora no Center for the Study of World Religions, da Universidade de Harvard, propôs, num seu artigo, encontrar respostas para perguntas como:
Que modos diferentes de consciência poderão surgir no caso de o olfacto e o tacto se tornarem modos fundamentais de conhecimento? Como é que se relaciona a ordem sensorial de uma cultura com a sua ordem social? Há uma ordem natural dos sentidos? Como é que se expressa, e se organiza, a experiência sensorial através da linguagem? Que alternativas poderão existir às nossas formas habituais de sentir o mundo?
Como é que se pensaram – e praticaram – os sentidos ao longo do tempo no Ocidente? Porque é que se cristalizou um número para os sentidos e porquê exactamente cinco? A ordem canónica (visão, olfacto, paladar e tacto) e a hierarquia que lhe está implícita terá sido sempre a mesma?
Segundo Classen, nem sempre houve acordo quanto ao número dos sentidos. Por exemplo, Platão, misturou o que hoje distinguimos como sentido e sentimentos. Numa enumeração das percepções, refere a visão, a audição e o olfacto, omitindo o paladar e substituindo o tacto pela sensação térmica (calor e frio); acrescenta sentimentos como o prazer, o desgosto, o desejo ou o medo.
Terá sido Aristóteles quem fundiu o que passaria a ser o actual canon dos ‘cinco sentidos’, naturalizando-os segundo a Física do momento: como na altura se defendia que eram cinco os elementos que compunham o cosmos (terra, ar, fogo, água e a quintessência ), assim também, segundo os princípio da proporção ou da semelhança, teriam de ser cinco os sentidos que nos permitiriam o contacto com esse mesmo cosmos. A visão, a audição, o paladar e o tacto seriam, então, os sentidos primários; já o olfacto exerceria a função de mediador entre os dois primeiros e os dois últimos. Foram quer a autoridade de Aristóteles, quer a da própria influência da Numerologia, que fixaram, até hoje, os cinco sentidos canónicos. Mas a ordem hierárquica passou por alterações ao longo da história. Por exemplo, Fílon (por razões numerológicas e influências hebraicas) defendeu sete, acrescentando o ‘sentido da fala’ e o ‘sentido sexual’. Curioso não é?
Tanto na Grécia Clássica, como na Idade Média, os sentidos eram, quer receptores passivos de inacção, quer meios activos de ligação com o ‘exterior’. Tal como do olho saem raios que tocam o observado, misturam-se com ele e incorporam-no no sujeito que vê, assim também saem da boca sons que atingem a coisa e, apalavrando-a, permitem ao sujeito apropriar-se dela. Por outro lado, a fala era tida como uma faculdade perfeitamente natural. Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, mandou realizar aquilo que terá sido a primeira experiência a testar as teses chomskianas: isolar um grupo de crianças e subtrair-lhes qualquer linguagem para averiguar em que línguas se expressariam para falarem espontaneamente: se em latim, em grego, hebraico ou língua vernácula. Durante a Idade Média, época por excelência do domínio da oralidade, ‘o sentido da língua’ foi considerado, praticamente, como um sexto sentido.
Noutras épocas, recupera-se a dinâmica dos sentidos correlacionando-se os cinco sentidos corporais com outros tantos espirituais, e que ‘processariam a inacção’ trazida pelos primeiros. Estes sentidos internos – a memória, o instinto, a imaginação, a fantasia e o sentido comum (sensus communis), seriam, para Orígenes, quem permitiria apreciar, por exemplo, a «doçura da palavra de Deus». Só com a Ilustração (séc. XVII) é que esses dez sentidos seriam desagregados, caindo uns para o lado das ‘faculdades sensoriais’ e os outros para o das ‘faculdades mentais’. Classen dedica o Capítulo ao «Odor da Rosa: Simbolismo Floral e a Decadência Olfactiva do Ocidente», intitulando, de ressonâncias spenglerianas à passagem para o primado dos odores, capazes de captar a ‘essência’, causadoras de doenças e propiciadores da saúde) e do desprezo do carácter meramente superficial da visão para o predomínio desta, traduzindo o poder de penetrar os objectos (mediante a sua análise ou decomposição) de forma a captar a sua essência.
Já na Europa medieval a ordenação dos sentidos parece ter sido tema de debate assaz popular. A visão e a audição disputavam a primazia, talvez em consonância com a prioridade que se desse ao livro ou à fala, como modos de comunicação e de conhecimento, não só entre as pessoas como entre estas e a divindade. Assim, Tomás de Aquino privilegiou a audição (é através dela que se percebe a palavra de Deus). Alain de Lille, descreve em 1183, os sentidos como cinco cavalos puxando uma carruagem que a Prudência conduz para os céus; pela sua rapidez, a visão colocou-se em primeiro lugar. Mas a carruagem é incapaz de atingir a sua meta, pelo que a Prudência, aconselhada pela teologia, solta a Audição e no seu dorso consegue chegar ao céu.
Um certo incómodo com a hierarquização, fixa e definitiva da ordem sensorial, foi sendo alimentada ao longo da história por alegorias até à Ilustração. No século XVII, Tomkis narra os desejos da fala, Língua, em ocupar um lugar entre os sentidos. O Sensus Communis ordena que a pretensão da Língua seja decidada no tribunal da justiça. Ali, cada sentido defende o seu valor específico e o Sentido Comum acaba por ditar que a Língua deve ser descartada, já que o sentidos não devem ultrapassar o número de cinco, analogamente aos quatro elementos e quintessência celestial. Contudo, abre-se uma excepção: as mulheres podem considerar a Língua como «o último e feminino sentido».
Com a Modernidade, os sentidos submergem-se plenamente na natureza, apesar de essa natureza já ser outra…Sendo pouco confiáveis, à maneira cartesiana, não passando de meros mecanismos físicos e passivos, os sentidos são considerados, numa via lockeana, a única fonte fiável de conhecimento. Tudo o que fosse actividade passaria para o lado mental (intelectual). Curiosidade: a autoridade do número cinco deixaria, definitivamente, de ser questionada.
Classen constata, nos nossos dias, aquilo que se pode interpretar como uma recuperação da antiga polémica sobre o número dos sentidos e a sua hierarquia. Assim, a unidade do tacto pulveriza-se numa multitude de sentidos especializados, como a cinestesia, a percepção da temperatura, da dor… Constata-se a existência, no ser humano, de um ‘sentido magnético’ que nos permite orientarmo-nos no campo magnético terrestre. Recupera-se, também, a antiga condição activa dos sentidos, quer vinculando-os às emoções (por exemplo, aos diferentes efeitos anímicos produzidos pelas diferentes cores), quer investigando a sua participação activa na construção do objecto percebido. Classen surpreende-se com o facto de que apesar de assistirmos a uma ênfase generalizada do carácter social e culturalmente construído de quase tudo (desde a alimentação ao buraco no ozono, passando pelo sexo e teorias científicas) os sentidos fiquem à margem de toda esta tónica, ficando o seu estudo confinado ao âmbito estritamente naturalista. Cita, não obstante, algumas excepções: a influência que McLuhan atribuiu ao papel desempenhado pelos sentidos nas transformações dos meios de comunicação, nas transformações do pensar e da organização social. Tem-se assistido ao auge da visão. A tese de G. Simmel - para quem a redução drástica das relações pessoas nas grandes cidades transforma um mundo, onde predomina a cortesia e a fala, num outro onde simplesmente se olha (‘serviço visual obrigatório’). A visão exige o distanciamento, estando na base da construção do ideal de objectividade que torna possível a ciência (Evelyn F. Keller), ideal tipicamente masculino (como é sabido, o homem peca pelo olho, a mulher pela orelha). Este quase monopólio da visão, no âmbito dos actuais estudos sociais que se ocupam dos sentidos, pode ser interpretado como mais um sintoma de desatenção e decadência dos restantes sentidos na nossa cultura. Criticar este ‘olhocentrismo’ abre a nossa percepção de outras percepções e permite-nos ampliar a nossa ‘visão do mundo’ àquilo que possam ser ‘audições do mundo’ ou ‘odores do mundo’.
Stella Z. de Azevedo 2008
Breve história do(s) sentido(s)
Como advertiu o filósofo H.-G. Gadamer são os preconceitos que nos permitem pensar ao anteporem-se aos nossos juízos, tornando-os, assim, possíveis. Daqui que esses preconceitos se deixem, dificilmente pensar… Mas podemos tentar fazê-lo virando-nos para os preconceitos dos outros, assistir à arbitrariedade que lhes está subjacente e que sustenta os seus juízos. Ora, a História é uma excelente via para nos distanciarmos de nós mesmos e olhar, com estranheza, aquilo que, de tão familiar, se nos tinha tornado invisível (não visível).
C. Classen, Professora no Center for the Study of World Religions, da Universidade de Harvard, propôs, num seu artigo, encontrar respostas para perguntas como:
Que modos diferentes de consciência poderão surgir no caso de o olfacto e o tacto se tornarem modos fundamentais de conhecimento? Como é que se relaciona a ordem sensorial de uma cultura com a sua ordem social? Há uma ordem natural dos sentidos? Como é que se expressa, e se organiza, a experiência sensorial através da linguagem? Que alternativas poderão existir às nossas formas habituais de sentir o mundo?
Como é que se pensaram – e praticaram – os sentidos ao longo do tempo no Ocidente? Porque é que se cristalizou um número para os sentidos e porquê exactamente cinco? A ordem canónica (visão, olfacto, paladar e tacto) e a hierarquia que lhe está implícita terá sido sempre a mesma?
Segundo Classen, nem sempre houve acordo quanto ao número dos sentidos. Por exemplo, Platão, misturou o que hoje distinguimos como sentido e sentimentos. Numa enumeração das percepções, refere a visão, a audição e o olfacto, omitindo o paladar e substituindo o tacto pela sensação térmica (calor e frio); acrescenta sentimentos como o prazer, o desgosto, o desejo ou o medo.
Terá sido Aristóteles quem fundiu o que passaria a ser o actual canon dos ‘cinco sentidos’, naturalizando-os segundo a Física do momento: como na altura se defendia que eram cinco os elementos que compunham o cosmos (terra, ar, fogo, água e a quintessência ), assim também, segundo os princípio da proporção ou da semelhança, teriam de ser cinco os sentidos que nos permitiriam o contacto com esse mesmo cosmos. A visão, a audição, o paladar e o tacto seriam, então, os sentidos primários; já o olfacto exerceria a função de mediador entre os dois primeiros e os dois últimos. Foram quer a autoridade de Aristóteles, quer a da própria influência da Numerologia, que fixaram, até hoje, os cinco sentidos canónicos. Mas a ordem hierárquica passou por alterações ao longo da história. Por exemplo, Fílon (por razões numerológicas e influências hebraicas) defendeu sete, acrescentando o ‘sentido da fala’ e o ‘sentido sexual’. Curioso não é?
Tanto na Grécia Clássica, como na Idade Média, os sentidos eram, quer receptores passivos de inacção, quer meios activos de ligação com o ‘exterior’. Tal como do olho saem raios que tocam o observado, misturam-se com ele e incorporam-no no sujeito que vê, assim também saem da boca sons que atingem a coisa e, apalavrando-a, permitem ao sujeito apropriar-se dela. Por outro lado, a fala era tida como uma faculdade perfeitamente natural. Frederico II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, mandou realizar aquilo que terá sido a primeira experiência a testar as teses chomskianas: isolar um grupo de crianças e subtrair-lhes qualquer linguagem para averiguar em que línguas se expressariam para falarem espontaneamente: se em latim, em grego, hebraico ou língua vernácula. Durante a Idade Média, época por excelência do domínio da oralidade, ‘o sentido da língua’ foi considerado, praticamente, como um sexto sentido.
Noutras épocas, recupera-se a dinâmica dos sentidos correlacionando-se os cinco sentidos corporais com outros tantos espirituais, e que ‘processariam a inacção’ trazida pelos primeiros. Estes sentidos internos – a memória, o instinto, a imaginação, a fantasia e o sentido comum (sensus communis), seriam, para Orígenes, quem permitiria apreciar, por exemplo, a «doçura da palavra de Deus». Só com a Ilustração (séc. XVII) é que esses dez sentidos seriam desagregados, caindo uns para o lado das ‘faculdades sensoriais’ e os outros para o das ‘faculdades mentais’. Classen dedica o Capítulo ao «Odor da Rosa: Simbolismo Floral e a Decadência Olfactiva do Ocidente», intitulando, de ressonâncias spenglerianas à passagem para o primado dos odores, capazes de captar a ‘essência’, causadoras de doenças e propiciadores da saúde) e do desprezo do carácter meramente superficial da visão para o predomínio desta, traduzindo o poder de penetrar os objectos (mediante a sua análise ou decomposição) de forma a captar a sua essência.
Já na Europa medieval a ordenação dos sentidos parece ter sido tema de debate assaz popular. A visão e a audição disputavam a primazia, talvez em consonância com a prioridade que se desse ao livro ou à fala, como modos de comunicação e de conhecimento, não só entre as pessoas como entre estas e a divindade. Assim, Tomás de Aquino privilegiou a audição (é através dela que se percebe a palavra de Deus). Alain de Lille, descreve em 1183, os sentidos como cinco cavalos puxando uma carruagem que a Prudência conduz para os céus; pela sua rapidez, a visão colocou-se em primeiro lugar. Mas a carruagem é incapaz de atingir a sua meta, pelo que a Prudência, aconselhada pela teologia, solta a Audição e no seu dorso consegue chegar ao céu.
Um certo incómodo com a hierarquização, fixa e definitiva da ordem sensorial, foi sendo alimentada ao longo da história por alegorias até à Ilustração. No século XVII, Tomkis narra os desejos da fala, Língua, em ocupar um lugar entre os sentidos. O Sensus Communis ordena que a pretensão da Língua seja decidada no tribunal da justiça. Ali, cada sentido defende o seu valor específico e o Sentido Comum acaba por ditar que a Língua deve ser descartada, já que o sentidos não devem ultrapassar o número de cinco, analogamente aos quatro elementos e quintessência celestial. Contudo, abre-se uma excepção: as mulheres podem considerar a Língua como «o último e feminino sentido».
Com a Modernidade, os sentidos submergem-se plenamente na natureza, apesar de essa natureza já ser outra…Sendo pouco confiáveis, à maneira cartesiana, não passando de meros mecanismos físicos e passivos, os sentidos são considerados, numa via lockeana, a única fonte fiável de conhecimento. Tudo o que fosse actividade passaria para o lado mental (intelectual). Curiosidade: a autoridade do número cinco deixaria, definitivamente, de ser questionada.
Classen constata, nos nossos dias, aquilo que se pode interpretar como uma recuperação da antiga polémica sobre o número dos sentidos e a sua hierarquia. Assim, a unidade do tacto pulveriza-se numa multitude de sentidos especializados, como a cinestesia, a percepção da temperatura, da dor… Constata-se a existência, no ser humano, de um ‘sentido magnético’ que nos permite orientarmo-nos no campo magnético terrestre. Recupera-se, também, a antiga condição activa dos sentidos, quer vinculando-os às emoções (por exemplo, aos diferentes efeitos anímicos produzidos pelas diferentes cores), quer investigando a sua participação activa na construção do objecto percebido. Classen surpreende-se com o facto de que apesar de assistirmos a uma ênfase generalizada do carácter social e culturalmente construído de quase tudo (desde a alimentação ao buraco no ozono, passando pelo sexo e teorias científicas) os sentidos fiquem à margem de toda esta tónica, ficando o seu estudo confinado ao âmbito estritamente naturalista. Cita, não obstante, algumas excepções: a influência que McLuhan atribuiu ao papel desempenhado pelos sentidos nas transformações dos meios de comunicação, nas transformações do pensar e da organização social. Tem-se assistido ao auge da visão. A tese de G. Simmel - para quem a redução drástica das relações pessoas nas grandes cidades transforma um mundo, onde predomina a cortesia e a fala, num outro onde simplesmente se olha (‘serviço visual obrigatório’). A visão exige o distanciamento, estando na base da construção do ideal de objectividade que torna possível a ciência (Evelyn F. Keller), ideal tipicamente masculino (como é sabido, o homem peca pelo olho, a mulher pela orelha). Este quase monopólio da visão, no âmbito dos actuais estudos sociais que se ocupam dos sentidos, pode ser interpretado como mais um sintoma de desatenção e decadência dos restantes sentidos na nossa cultura. Criticar este ‘olhocentrismo’ abre a nossa percepção de outras percepções e permite-nos ampliar a nossa ‘visão do mundo’ àquilo que possam ser ‘audições do mundo’ ou ‘odores do mundo’.
Stella Z. de Azevedo 2008
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