quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Comemoremos

Ao comemorarmos os cinquenta anos da Escola Serafim Leite, comemoramos também os cinquenta anos das suas árvores…



Ao comemorarmos os cinquenta anos da Escola, derrubámos uma companheira de “cinquenta anos”… Não era feia, não estava estragada e, ainda que o fosse, ainda que o estivesse, teriam, essas condições, sido motivo para tamanha falta de escrúpulo? Estaria ela, companheira, mal colocada ou, mal colocados, estiveram os olhos de quem esperou cinquenta anos para reparar nesse disparate geométrico?

Foi livre na prisão da sua terra, mais do que o homem na sua libertinagem tecnológica pelos astros fora. Foi companheira fiel de todas as desventuras, deu pássaros às vidraças, sussurrou paz nos exames, contou-nos histórias do vento, deu-nos as estações do ano, o chilrear dos pássaros, a sombra da manhã e o fresco do meio-dia de Junho...

Perdemos os seus “cinquenta anos” de sólido apego à terra – “cinquenta anos” que só ela poderia contar mas, perdida no seu caminho errante e sedentário, quedou-se, opaca, na frente de uma câmara vigilante cuja única e última redenção era observar os importantes acontecimentos de uma escada e, por isso, foi abatida. Há que aceitar o erro da árvore… foi ela, na verdade, que se estacionou no lugar errado. A câmara vigilante, agente implacável de um importante “Plano Tecnológico” não podia, nem era sua obrigação, vigilar de outro lugar.

Quanto valerão cinquenta anos de uma árvore? Para alguns, valeram menos do que uma câmara vigilante, novinha em folha. Cem, duzentas, trezentas, um milhão de câmaras… teriam sido preço barato para uma companheira mas, esses “alguns” são educadores, detêm os “valores certos” para poderem sustentar a avaliação que fizeram. Certamente, consideraram que, numa escola, tal como em qualquer outra dimensão ética, os fins não justificam os meios e os valores, os princípios… fundamentam os fins…

“Os fins justificam os meios” é o argumento dos “sem escrúpulos”. Nesta escola pensa-se nos alunos, derrubando árvores… A Indústria pensa na humanidade, derrubando o planeta; a prostituta pensa nos filhos, derrubando o próprio corpo; o pescador pensa na fome, extinguindo o peixe… Que paradoxo este de pensar no bem dos outros, derrubando o bem que lhes faz falta! É o paradigma do Zé do Telhado – é uma (des)razão muito, muito velhinha.

A escola tem os “valores certos” – tem as Ciências da Vida, tem a Arte, a História da Cultura, tem a Filosofia, as Ciências Exactas, as Humanidades… mas, agora, neoliberal e orientada para a profissão e para o lucro das empresas, a sua atenção ética deveria ser permanente e incisiva.

Estou certo que os alunos desta escola, dotados de polegar opositor, não aprenderão por imitação. Aprenderão, certamente, que a escola não é uma incubadora imune às intempéries viru(lógicas) do mundo e que ela – parcela e função desse mundo – padece das mesmas desgraças.

Estas palavras provocarão a resposta de alguém mais, ou menos, incomodado e que, dotado de inteligência superior (e polegar opositor), procurará explicar os “meios”, apresentando fundamentos técnicos (e lógicos) para que outros, não tão informados (ainda que dotados de polegar opositor), percebam os “fins”, as “metas”, os “objectivos”…

Esse “alguém” dirá que, inesperadamente, na mesma semana e após dezenas de anos de saúde constante, várias árvores adoeceram ao mesmo tempo e, coitadinhas, tiveram de ser abatidas. Dirá ainda que serão plantadas outras árvores… muitas árvores… uma floresta inteira.

Quem planta uma árvore por cada árvore que derrube, aliviará a sua consciência porque terá uma consciência fácil de aliviar. Por cada árvore que derrube, ainda que refloreste cem Amazónias, perderá amigos sem conta “aqui” no lugar dos princípios, dos valores e dos ideais (onde a escola deveria estar).

Este dilema ético, entre os “fins” e os “meios” é o grande paradigma das civilizações. Ainda não conciliámos o Engenho e a Arte; o Comércio, a Indústria e a Cultura; o Progresso e o Património… Por isso, habitantes da Modernidade, burgueses, tacanhos e pobres de espírito, conservámos as Pedras de Roma e perdemos as Ideias de Grécia (parafraseando Pessoa) – temos fugas de felicidade nas vidraças de nossas casas e um “grande plasma” na sala-de-estar. Temos pingos de chuva em salas de aula às quais não falta o “monitor interactivo”.

“Mas pronto – não me quero incomodar”.

Viva o Plano Tecnológico.

Vivam as Empresas

Viva a Produção.

Viva o Euro, viva o Dólar.

Vivam as Profissões todas.

Vivam os “recibos verdes”

Morram as árvores.

Morra a Arte.

Morra a Cultura, o pensamento e o escrúpulo.

Haja felicidade na desgraça – que os nossos alunos aprendam o contentamento de serem felizes na desgraça… Não eu.

Paulo Duarte

sábado, 24 de Maio de 2008

“VIVÁSOBRAS!!!”



Ei-lo que chega, triunfante na sua cor azul-porto, resfolegante, reluzente no seu ar de máquina de última geração, com seus quatro sólidos pés de borracha, enormes e redondos, maior o par de trás do que o da dianteira; vem avançando, com seu atrelado igualmente azul, a condizer com a restante carroçaria… Impante, dirigia-se para nós que, tranquilamente até ali, fazíamos teste de Português na sala 1 e, de repente, achámos que ele ia entrar pela sala dentro e sentar-se, após ter derrubado paredes e janelas, junto a nós, igualmente a fazer teste… Mas não! À última hora o tractor inflectiu, virou à esquerda, e preferiu ir encher-se de ervas daninhas, de folhas mortas acumuladas durante três longos Outonos, de restos de arbustos decepados recentemente, na sanha de limpeza dos funcionários camarários…
De repente, começou a ouvir-se um outro ruído forte, de potente motor, e vimos
avançar um corpulento camião amarelo, amarelíssimo, conduzido por uma tripulação que, no seu português vernáculo, se esquecia que estava numa escola e nós, ao vê-la enquadrada nos limites do caixilho da janela da sala de aula, estranhámos não ver a clássica bolinha vermelha no canto superior direito da mesma e não ouvir o estridente e respectivo “piiiiiiiiiiiiiiii” anunciador de inconveniência…
Este, o amarelão, começou então a engolir no seu bojo escuro e misterioso doses maciças de detritos, terra, papéis, garrafas de plástico, embalagens de iogurte, borrachas perdidas por distraída e jovem mão, invólucros de chiclete e de bolachas, pedaços de lápis já sem préstimo, carcaças esventradas de velhas esferográficas… E, mercê da sua acção, o pátio ia ficando cada vez mais desanuviado e limpo!
Não lhes vi as cores nem os tamanhos, mas houve-os que vieram transportando areia, cimento, tijolos, brita, ferramenta variada e carregavam, sem que o suspeitássemos, a nova guarita ainda informe, indefinida, em projecto…





No átrio da escola, trazidos por furgões, furgonetas, carrinhas de caixa aberta e fechada, acumulavam-se, primeiro, baldes e baldes de tinta, a que se seguiram caixotes de todos os tamanhos, de cores e inscrições variadas e coloridas, num “Lego” próprio para gigantes, que anunciava de imediato o relativo caos que iria seguir-se!
No entanto, por trás destes volumes, ainda restava a D. Maria José (ou seria a Dª Elisabete?) é certo que já meio escondida, mas ainda dentro do seu aquário de cristal, que nos enviava a saudação habitual, à chegada ou despedida e, pelo menos esse gesto, afável e diário, era o mesmo de sempre e tornava tudo menos irreal!
Mas isso que achávamos que só podia ser o caos, revelava-se, de repente, o milagre da criação e onde, no dia anterior, alunos cavaqueavam ruidosamente à frente de um computador, em cadeiras verdes de esplanada, da noite para o dia, cresceram tijolos, nasceram paredes, duas portas, janelas, uma nova valência: “Papeloreprografia, uma saborosa parceria ao seu dispor para o servir!”
Progredindo para o interior da escola, andando pelos corredores, descobríamos, sobre as nossas cabeças, novos corredores, perdão!, novas auto-estradas – as da informação!!! Novas, novíssimas, em formato de elegantíssimos fios lilases, acomodados às centenas (?) em longas cestas metálicas que pendiam do tecto!!! Todos da mesma cor e grossura! Nem a fibra óptica escapa ao “ design” de moda e à globalização! Cabeleira futurista penteada em longo cabelo liso digno de Dali ou obrigatoriedade de fato uniforme à Mao Tsé Tung de outras eras?
Progredindo ainda mais para o interior da escola e tentando passar para outro edifício, subitamente, O GRANDE CHOQUE –a constatação dolorosa de que nada é definitivo nesta vida! Aquela obra de arte dos dias de hoje, aquela forma de arte urbana, o “grafitti”, aquela declaração de amor publicamente assumida, que eu tinha tomado por imorredoira, a jura de amor já velha de três anos, que resistira a três Invernos, escrita na vedação metálica que nos impedia a vista das obras, só permitida a iniciados, aquele grito incontido: “Amo-te, Patrícia!”, destruída! A fenda abrira-se, instalara-se a dúvida, o amor terminara: A…..m…t……..ia! A jura perdera o sentido, desmoronara-se a promessa !!! Conseguirei recompor-me de tal perfídia?



À vista, agora, a menina dos olhos das obras: O CMI…
Impenetráveis, indecifráveis, misteriosas como todas as siglas, aquelas letras o que significavam?
Entremos com a curiosidade de três longos anos refreada, virgem!
C. de Centro – claro! Como não pensei nisso antes? Realmente, fica no coração dos edifícios que compõem a escola…
M de Multidisciplinar! Igual a: comum a várias disciplinas!!! O quê? Não posso crer! Um espaço para todas as disciplinas? Nunca mais teremos de ir para as salas 45, 26, 27…? Não me acordem deste sonho!
I de Interactivo! É para interagirmos? Mas como? Posso mesmo dizer adeusinho à colega que dá aulas para lá do vidro? Ai que bom! Por favor, não me acordem mesmo deste sonho!!!

No meio de toda esta azáfama a que se juntavam as actividades habituais e quotidianas, como horários a cumprir, aulas a dar, campainha a tocar a horas exactas, matrizes a entregar nos prazos, testes e provas de exame a elaborar para dias aprazados, Encarregados de Educação a receber, visitas de estudo a acompanhar, convites para apresentação de trabalhos de Área de Projecto a aceitar, componente não lectiva a cumprir, testes a corrigir, decisões sobre passagens/ reprovações a afligir e a fazer guerra entre coração e razão, no meio de tudo isto, dizia eu, sentíamo-nos tão perdidos, tão cansados que, quando víamos as simpáticas e solícitas carrinhas brancas que anunciavam – Assistência Técnica – só tínhamos vontade de embarcar imediatamente numa delas para nos arranjarem, nos comporem, nos reciclarem, nos consertarem, se conserto ainda fosse possível! E a questão, quando se avança na idade e se continua a dar aulas fingindo que o tempo não passou por nós, a questão sacramental é sempre a mesma: ainda haverá peças para mim?
E como, quando este mar proceloso, varrido por ventos ciclónicos de modernidade, amainar, continuará a haver domingos como havia antes, mas as mãos, essas serão mais gulosas e mais ávidas para a nossa nova escola, recheada, renovada, fresquinha como uma “super-nova” após explosão, elas lá estarão, as câmaras, em cada esquina, vigiando este nosso espaço, com o seu olho mecânico mas atento, na nossa ausência, na quietude morna do fim -de- semana.
Sim, nosso, porque cada um de nós o sente como seu, porque aí esteve horas a fio, passando por algumas tristezas, mas vivendo também muitas alegrias. É que cada um de nós aí esteve não só transmitindo conhecimentos, mas também desbravando selvas, mostrando caminhos, pintando paredes, abrindo sorrisos, secando lágrimas (quem secará as nossas?), em resumo, fazendo coroas de flores para afastar maldades!!!


POR ISSO,VIVÁSOBRAS!!!

Professora Margarida Matos

(fotos ) professor Celestino Pinheiro

sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Crónica

Era um dia normal como tantos outros, manhã de domingo, estava eu na cama sem nada para fazer; de um momento para o outro, lembrei-me de telefonar a uns colegas meus para ir dar uma volta de tarde. Tudo combinado, almocei e vesti uma roupa confortável. Estava no sofá e ouvi um buzinar! Eram os meus colegas que tinham chegado para me levar; entrei no carro e partimos.

Ao sair do carro avistámos um sem-abrigo, os meus amigos começaram a gozá-lo, eu estava indignado e envergonhado com a atitude deles. Não fui capaz de fazer nada! Senti-me fraco, muito fraco. Estava eu ali preparado fisicamente para actuar, mas psicologicamente não estava preparado e não fui capaz de actuar. Um dia depois, sentado no meu sofá comecei a pensar “quantas pessoas se prendem fisicamente em função do que os outros fazem ou pensam’”, “ se todos fossem capazes de fazer o que querem, não pensando na opinião dos outros, poderíamos viver num mundo melhor e mais justo”.

Enfim, fui mais um a contribuir para um mundo pior. Quantas pessoas mais fazem e continuam a fazer o que eu fiz?

Sérgio Nogueira – 10º C

Médicos vs Futebolistas

Há dias todos pudemos ler nos jornais e ver na televisão os ordenados dos melhores jogadores do mundo…

Não entendo, juro que não entendo. Como um jogador de futebol ganha mais que um médico? Um rapaz que apenas corre atrás de uma bola ganha mais que um herói, um salva-vidas…

Enquanto um jogador se diverte marcando um penalti, ou marcando o adversário, ou até mesmo aliviando o stress dando um chuto na bola, o médico está lá nas urgências, depois de passar a noite toda no hospital, de plantão, pronto para mais uma cirurgia, para tentar salvar mais uma vida. Um diverte-se, jogando bola, que é muito mais lazer que trabalho, e o outro salva vidas, trabalhando a sério.

Enquanto o jogador finta o adversário, o médico tenta fintar a morte, fazendo o possível e o impossível para que o doente não passe desta para pior.



Frederico Tavares - 10º C

Crónica da vida

Entrou num bar e pediu um guaraná bem fresco.

Sobre a mesa pousou a bolsa e o livro de Filosofia.

O empregado abriu a garrafa, mas antes perguntou se servia natural. Ele foi até á entrada e colocou um disco na aparelhagem; A voz de Nelly Furtado tomou conta do ambiente.

“De que serve viver tantos anos sem amor…/Se viver é juntar enganos de amor.”

Dissolveu o veneno no copo e bebeu. Deu tempo para ouvir a música até ao fim.

No mesmo instante, ele, falido e sob ordem de prisão, atirou-se do oitavo andar. Saiu nos jornais.

Aconteceu em 12/07/2007.

Carlos Pinto – 10º C

terça-feira, 20 de Maio de 2008

Antes de escrever um,
A ler num aprendeu.

Quantos livros leu,
Aquele que o primeiro livro escreveu?

Xavier, 10ºG

Do nada,
Nasceram dois!
Dois diferentes.
Um. Dois.

Um, era ele.
Dois, era ela.
Ele era belo,
Ela era feia.

Eram apenas dois.
Dois para Um, era bela.
Um para Dois era perfeito.
Juntaram-se os dois,
E fizeram um Terceiro.

Para dizer ao Um,
Que o Dois era feio,
Teve que vir um terceiro!

Xavier, 10ºG

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Amo como ama o amor.
Não conheço nenhuma outra razão para amar. Será amar?
Que queres que te diga, além de que te amo, se o que te quero dizer
é que te amo?

Josué Ferreira
10ºG