
Ao comemorarmos os cinquenta anos da Escola, derrubámos uma companheira de “cinquenta anos”… Não era feia, não estava estragada e, ainda que o fosse, ainda que o estivesse, teriam, essas condições, sido motivo para tamanha falta de escrúpulo? Estaria ela, companheira, mal colocada ou, mal colocados, estiveram os olhos de quem esperou cinquenta anos para reparar nesse disparate geométrico?
Foi livre na prisão da sua terra, mais do que o homem na sua libertinagem tecnológica pelos astros fora. Foi companheira fiel de todas as desventuras, deu pássaros às vidraças, sussurrou paz nos exames, contou-nos histórias do vento, deu-nos as estações do ano, o chilrear dos pássaros, a sombra da manhã e o fresco do meio-dia de Junho...
Perdemos os seus “cinquenta anos” de sólido apego à terra – “cinquenta anos” que só ela poderia contar mas, perdida no seu caminho errante e sedentário, quedou-se, opaca, na frente de uma câmara vigilante cuja única e última redenção era observar os importantes acontecimentos de uma escada e, por isso, foi abatida. Há que aceitar o erro da árvore… foi ela, na verdade, que se estacionou no lugar errado. A câmara vigilante, agente implacável de um importante “Plano Tecnológico” não podia, nem era sua obrigação, vigilar de outro lugar.
Quanto valerão cinquenta anos de uma árvore? Para alguns, valeram menos do que uma câmara vigilante, novinha em folha. Cem, duzentas, trezentas, um milhão de câmaras… teriam sido preço barato para uma companheira mas, esses “alguns” são educadores, detêm os “valores certos” para poderem sustentar a avaliação que fizeram. Certamente, consideraram que, numa escola, tal como em qualquer outra dimensão ética, os fins não justificam os meios e os valores, os princípios… fundamentam os fins…
“Os fins justificam os meios” é o argumento dos “sem escrúpulos”. Nesta escola pensa-se nos alunos, derrubando árvores… A Indústria pensa na humanidade, derrubando o planeta; a prostituta pensa nos filhos, derrubando o próprio corpo; o pescador pensa na fome, extinguindo o peixe… Que paradoxo este de pensar no bem dos outros, derrubando o bem que lhes faz falta! É o paradigma do Zé do Telhado – é uma (des)razão muito, muito velhinha.
A escola tem os “valores certos” – tem as Ciências da Vida, tem a Arte, a História da Cultura, tem a Filosofia, as Ciências Exactas, as Humanidades… mas, agora, neoliberal e orientada para a profissão e para o lucro das empresas, a sua atenção ética deveria ser permanente e incisiva.
Estou certo que os alunos desta escola, dotados de polegar opositor, não aprenderão por imitação. Aprenderão, certamente, que a escola não é uma incubadora imune às intempéries viru(lógicas) do mundo e que ela – parcela e função desse mundo – padece das mesmas desgraças.
Estas palavras provocarão a resposta de alguém mais, ou menos, incomodado e que, dotado de inteligência superior (e polegar opositor), procurará explicar os “meios”, apresentando fundamentos técnicos (e lógicos) para que outros, não tão informados (ainda que dotados de polegar opositor), percebam os “fins”, as “metas”, os “objectivos”…
Esse “alguém” dirá que, inesperadamente, na mesma semana e após dezenas de anos de saúde constante, várias árvores adoeceram ao mesmo tempo e, coitadinhas, tiveram de ser abatidas. Dirá ainda que serão plantadas outras árvores… muitas árvores… uma floresta inteira.
Quem planta uma árvore por cada árvore que derrube, aliviará a sua consciência porque terá uma consciência fácil de aliviar. Por cada árvore que derrube, ainda que refloreste cem Amazónias, perderá amigos sem conta “aqui” no lugar dos princípios, dos valores e dos ideais (onde a escola deveria estar).
Este dilema ético, entre os “fins” e os “meios” é o grande paradigma das civilizações. Ainda não conciliámos o Engenho e a Arte; o Comércio, a Indústria e a Cultura; o Progresso e o Património… Por isso, habitantes da Modernidade, burgueses, tacanhos e pobres de espírito, conservámos as Pedras de Roma e perdemos as Ideias de Grécia (parafraseando Pessoa) – temos fugas de felicidade nas vidraças de nossas casas e um “grande plasma” na sala-de-estar. Temos pingos de chuva em salas de aula às quais não falta o “monitor interactivo”.
“Mas pronto – não me quero incomodar”.
Viva o Plano Tecnológico.
Vivam as Empresas
Viva a Produção.
Viva o Euro, viva o Dólar.
Vivam as Profissões todas.
Vivam os “recibos verdes”
Morram as árvores.
Morra a Arte.
Morra a Cultura, o pensamento e o escrúpulo.
Haja felicidade na desgraça – que os nossos alunos aprendam o contentamento de serem felizes na desgraça… Não eu.
Paulo Duarte



